• publicado em 11.07.2011
  • Inflação é pressionada pelos salários
  • Empresas estão tendo de pagar salários cada vez maiores para contratar novos funcionários, principalmente para tirar pessoal de empresas concorrentes

     

    A inflação deu uma trégua nos dois últimos meses, puxada pela queda no preço dos alimentos, mas deve voltar a ser pressionada no segundo semestre. Para economistas, o maior sinal de preocupação com os índices de preços vem do mercado de trabalho.

    As empresas estão tendo de pagar salários cada vez maiores para contratar novos funcionários, principalmente para tirar pessoal de empresas concorrentes.

    Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram que os salários de contratação na indústria cresceram 12% nos últimos 12 meses. Na média da economia, a alta foi de 10%.

    No mesmo período, a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços Ampliado (IPCA) ficou em 6,7% – acima do teto da meta de inflação estabelecida pelo governo para 2011, de 6,5%.

    "Como trazer a inflação para 4,5%, se os salários estão crescendo 10%, 12%?", questiona o economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da consultoria MB Associados. Para ele, o cenário não é de descontrole, e sim de deterioração das condições econômicas.

    "Não é alarmante, mas prejudica o crescimento de médio e longo prazo." Pesa ainda sobre a inflação a pressão que deve ser exercida pelos reajustes salariais das grandes categorias que querem negociar aumentos reais.

    O crescimento da massa real de salários é bom para o consumidor e excelente para as vendas. No entanto, representa um aumento de custos para as empresas. "O problema é que elas estão mudando a forma de fazer preços", afirma o consultor.

    Preços. Até um ano e meio atrás, segundo ele, a tabela de preços era instrumento de competição das companhias. "Hoje, elas simplesmente repassam os aumentos para os preços."

    Há cerca de três semanas, Mendonça de Barros teve um almoço com um empresário do setor de embalagens de papelão, que considera exemplar. O industrial contou que, quando precisa aumentar preços, o ritual estabelecido há anos é sempre o mesmo: sua gerente de grandes clientes liga para todos e marca uma reunião. "O cidadão já sabe qual é o assunto e, se não está afim, ele diz que foi viajar." O caso é que essa gerente estava impressionadíssima. Duas semanas antes, ela ligou para os grandes clientes, falou com 100% deles, marcou a reunião com poucos dias de diferença com todos e aumentou os preços para 100% dos casos. "Evidentemente, o cara que comprou o papelão vai repassar isso para a frente."

    Além da indexação informal, Mendonça de Barros acredita que muitos dos itens que hoje estão ajudando a segurar a inflação voltarão a pressioná-la.

    O preço do etanol é um deles. Isso porque a oferta de cana-de-açúcar deverá permanecer praticamente estável na comparação com 2010, enquanto a demanda pelo combustível cresce fortemente.

    Fonte: Estadão