• publicado em 13.12.2010
  • BNDES reduz ritmo para se estabilizar
  • Banco de fomento elevou em 470% volume de desembolsos
  • Com a rápida recuperação da economia após a crise mundial e a expansão recorde do Produto Interno Bruto (PIB) este ano, que deve ultrapassar 7%, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) pisa no freio. Com a previsão de encerrar 2010 com liberação de R$ 146 bilhões, o banco mantém o crescimento, turbinado com aportes e empréstimos do Tesouro, mas reduz o ritmo para encarar seus limites.

    Em dez anos, o BNDES elevou em 470% seu volume de desembolsos. Em 2007, quando emprestou R$ 64,9 bilhões, já estava entre os maiores bancos de fomento do mundo. Com a crise desencadeada nos Estados Unidos em 2008, foi escalado pelo governo para suprir a retração de crédito que fez despencar os investimentos. Liberou R$ 92,2 bilhões em 2008 e alcançou R$ 137,4 bilhões em 2009.

    A expansão marcou ainda mais a distância do BNDES até mesmo de organismos multilaterais como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)e o Banco Mundial. O primeiro teve US$ 15,5 bilhões (cerca de R$ 26,3 bilhões) em crédito aprovado para 48 países no ano passado e o segundo, US$ 40,3 bilhões (cerca de R$ 68,5 bilhões) desembolsados no ano fiscal 2009-2010.

    O BNDES ganha na comparação com similares de outros países, como o banco alemão de desenvolvimento KfW. A instituição financeira estatal liberou 50,9 bilhões (cerca de R$ 117 bilhões) em 2009.

    Os ativos totais do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social somaram R$ 472, 4 bilhões no primeiro semestre deste ano, quase três vezes os cerca de US$ 100 bilhões de ativos do KDB, o banco de desenvolvimento da Coreia do Sul. Em 2007, os dois bancos empatavam na comparação desses indicadores.

    Financiamento

    Numa comparação feita pelo banco de desenvolvimento da Rússia (VEB) com dados de 2007 e 2008, o BNDES só perdia em ativos para os similares chineses. A diferença entre o banco brasileiro e seus pares, e o que explica o seu tamanho, é a ação excessivamente diversificada para equilibrar sobre os ombros cerca de 70% do financiamento de longo prazo feito no Brasil.

    Hoje, o BNDES financia de tudo: do ônibus à hidrelétrica, do estaleiro à farinha para pão francês, da sala de cinema ao estádio de futebol. O banco viabiliza praticamente sozinho os investimentos do País.

    Não foi à toa que o governo reagiu à crise elevando ainda mais o patamar de empréstimos do BNDES. Enquanto o consumo se manteve em alta, o investimento despencou a 16,9% do PIB com a crise. Após os empréstimos do Tesouro Nacional de R$ 180 bilhões que elevaram as liberações do BNDES em 125% entre 2007 e 2010 para acelerar a retomada de projetos, a taxa voltou ao patamar pré-crise, perto de 19% do PIB, mas preservou as limitações ao crescimento da economia.

    "Para alcançar um investimento de 23% do PIB e sustentar crescimento acima de 5%, não dá para imaginar que o BNDES financie tudo isso. Podemos ter um constrangimento de financiamento nos próximos anos sem uma alternativa", alerta o economista Ricardo Carneiro, professor do Instituto de Economia da Universidade de Campinas (Unicamp).

    Crédito privado. Para ele, o banco é uma vantagem do País, mas está perto do limite e precisa ceder espaço ao crédito privado. "Não é exagero ou fora de contexto o papel que o BNDES teve e tem. O Brasil teve um desenvolvimento industrial que outros países do mundo com características parecidas não tiveram", afirmou o professor.

    Ricardo Carneiro ressalta que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social não cresceu do nada, mas da necessidade de desenvolver uma economia complexa sem financiamento de longo prazo. "O crescimento recente não tem a ver só com a crise, mas com o novo ciclo de investimentos. Se dá para continuar ampliando? Acho difícil", ponderou o professor. 

    Fonte: Estadão